Os Primeiros Encontros em Indaiatuba
Minha jornada em Indaiatuba começou no final da década de 1970, quando conheci um casal notável: Nabor Pires Camargo e Cleonice Mattioli Camargo. O primeiro contato ocorreu por meio de amigos em comum, como Antônio da Cunha Penna e o saudoso maestro Marcelo Antunes Martins. Naquela época, o casal estava retornando de Mococa e se estabelecendo na Rua 13 de Maio, quase na esquina com a Rua 11 de Junho.
Com o passar do tempo, eles decidiram voltar para sua terra natal, mas tinham um desejo imenso de estar ao lado de sua filha e, por isso, se mudaram definitivamente para Mococa. Infelizmente, Nabor nos deixou em 1996, aos 94 anos. Em 2026, celebra-se o 30º aniversário de seu falecimento, e isso me leva a relembrar momentos valiosos que vivi ao lado desse casal inspirador.
A Influência de Nabor na Música Local
Nabor foi um grande clarinetista admirado pelo seu talento e era uma figura central na cena musical de Indaiatuba. Nascido em 9 de fevereiro de 1902, ele começou sua jornada na música aos nove anos, praticando clandestinamente com o instrumento de um irmão. Este amor pela música o levou a estudar com um músico que se mudou para Indaiatuba com o intuito de formar uma banda local de crianças, da qual Nabor fez parte.

Aos 19 anos, Nabor se mudou para São Paulo, onde continuou seus estudos no Conservatório Dramático e Musical e trabalhou como músico em cinemas, o que era uma prática comum antes da chegada do cinema sonoro. Sua resiliência e dedicação o levaram a gravar várias músicas e se estabeleceu como um compositor respeitado.
Cleonice e Suas Contribuições Notáveis
Cleonice, por sua vez, era uma mulher de ideias brilhantes e tinha um papel fundamental na vida artística do casal. Os encontros em sua casa eram repletos de discussões sobre música, arte e a cultura brasileira. Cleonice me revelou um raro projeto que consistia na redução do Hino Nacional Brasileiro, mantendo sua essência musical. Esta ideia era voltada para propor uma execução mais breve do hino, sem perder a sua majestade.
Ela também me ensinou uma forma interessante de executar o hino sem perder a melodia. A diferença de sequência entre o sonhar e o deitar no texto era uma metáfora que ela adorava usar para justificar a fluidez da canção. Essa abordagem simples, mas profunda, ilumina a forma como Cleonice pensava sobre a música e a vida.
Recordações da Rua 13 de Maio
As memórias da Rua 13 de Maio ainda são vívidas para mim. A casa de Nabor e Cleonice era um ponto de encontro para músicos, artistas e amigos. O ambiente era sempre acolhedor, com risadas e harmonias que ecoavam pelas paredes. Muitas vezes, eu me via imerso em histórias sobre as composições de Nabor e suas colaborações com outros músicos renomados da época.
Esses encontros foram mais do que simples momentos de socialização; eles representavam a mente criativa de Nabor, que se manifestava não só na música, mas também nas interações humanas que ele cultivava com tanto carinho. Era um verdadeiro centro cultural, onde a música e a poesia eram celebradas.
O Legado Musical de Nabor Pires Camargo
Nabor deixou um legado musical significativo. Compositor e instrumentista, suas obras vão desde sambas a choros, passando por músicas para cinema. Ele gravou suas primeiras canções em 1927, e a partir daí, a sua carreira foi repleta de sucessos. Suas composições, como “Caindo das nuvens”, tornaram-se clássicos e continuam a ser apreciadas até hoje.
O esforço do casal na preservação da cultura musical é digno de destaque; Nabor colaborou na formação de álbuns didáticos que ajudaram diversos estudantes de música por gerações. Seu método para clarinete, lançado em 1948, permanece um dos mais vendidos no Brasil até hoje.
A Importância da Família na Vida de Nabor e Cleonice
O forte vínculo familiar era um aspecto essencial na vida de Nabor e Cleonice. A decisão de retornar a Mococa foi motivada pelo desejo de estar próximo de sua filha e de se apoiar mutuamente em todos os momentos da vida. Essa dedicação à família era clara em cada interação que tinha com o casal. Eles viam a música não apenas como uma profissão, mas como um veículo de união familiar.
Juntos, como família, eles criaram um ambiente propício ao aprendizado e à criatividade. Cleonice, com suas ideias, e Nabor, com sua musicalidade, se tornaram exemplos de vida em comunidade, mostrando como cada um contribui para o fortalecimento dos laços familiares.
Histórias e Anedotas que Marcaram Nossas Reuniões
As reuniões na casa deles eram repletas de histórias e anedotas que faziam todos rirem. Cada visita era uma nova oportunidade de aprender algo novo e apreciar a simplicidade da vida. Uma história que sempre me marcou foi sobre como Nabor compôs uma canção para uma festividade local. Ele detalhou como a inspiração veio em um momento inesperado, enquanto estava no mercado.
Essas memórias de nossas reuniões não eram apenas sobre música, mas também sobre a cultura e a tradição que formavam a base de quem éramos como comunidade. Nabor e Cleonice tinham a habilidade especial de conectar pessoas através da música, e cada relato demonstrava seu amor profundo por Indaiatuba.
Memórias de Mococa e Sua Conexão com Indaiatuba
A relação de Nabor e Cleonice com Mococa e Indaiatuba era como a de um rio que flui e se ramifica. Embora eles tivessem retornado a Mococa, nunca deixaram de lado suas raízes em Indaiatuba. O amor por sua cidade natal sempre esteve presente nas composições de Nabor, e sua música refletia as vivências e as emoções ligadas a ambos os lugares.
Essa conexão entre os dois locais fortaleceu a cultura musical da região, permitindo que tradições se mantivessem vivas e que novos talentos pudessem surgir. A história deles é um testemunho do impacto que um casal pode ter em uma comunidade e na música local.
Reflexões sobre o Hino Nacional Brasileiro
As conversas com Cleonice sobre o Hino Nacional Brasileiro abriram uma nova perspectiva para mim. O hino, que muitos cantam sem pensar, guarda uma complexidade musical que poucos percebem. A proposta de adaptação que ela sugeriu não era apenas uma redução de tempo, mas um convite à reflexão sobre a nossa identidade nacional.
A ideia de cantá-lo de modo a respeitar sua sonoridade e cadência revela o amor de Cleonice pela música e o valor que ela atribui à educação musical. Discutir as nuances do hino era uma forma de ensinar também sobre a história e a função da música na formação de um povo.
O Impacto Cultural de Nabor e Cleonice na Comunidade
Nabor e Cleonice não foram apenas músicos, mas verdadeiros embaixadores da cultura. Seu legado perdura através de suas composições, mas também nas memórias de todos que tiveram o privilégio de conhecê-los. A alegria e a generosidade que demonstraram em vida são a essência de sua influência cultural em Indaiatuba.
A música e as ideias de Cleonice continuam a ressoar nos corações de seus amigos, familiares e na comunidade local, simbolizando um testemunho duradouro do poder da arte em unir pessoas. A história deles inspira as gerações futuras a valorizar suas raízes e a continuar a tradição musical que tão carinhosamente construíram.


